Exposição Prolongada à Ficção Científica  

   um blog de Luís Filipe Silva


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06 Junho 2005

OPINIÕES são por vezes importantes, outras de ocasião. Embora com algum fundamento...

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04 Junho 2005

EXPECTATIVAS. Por vezes não muito claras e frustram. O que dizer de Lint, de Steve Aylett? Que poderia ter sido um pouco menos Woody Allen e um pouco mais criativo na crítica/descrição dos tempos iniciais da FC americana? Apresentar cameos dos famosos e inventar rumores inauditos? Tudo aquilo fica aquém do que poderia ser (mas que só se percebe ao ser lido), apesar de algumas frases excelentes e que poderei partilhar. Mas é daqueles livros que dá medo pousar, pois sabemos que não voltaremos...

E se tivesse sido um pouco mais assim:

Terá sido a ficção científica, e não o movimento revolucionário, o principal responsável pelo derrube da ditadura em Portugal.

Esta tese arrojada é-nos apresentada em Do Espaço às Armas: a influência política da cultura fantástica em Portugal, o livro mais recente do historiador António Villabuena. De acordo com o seu jeito muito próprio de abordar a história segundo perspectivas radicais, com que nos tinha habituado em Os Descobrimentos como Compulsão Sexual e O Ópio na Corte de D. Carlos I, Villabuena revê as três últimas décadas, muito movimentadas a nível político, à luz de uma literatura considerada demasiado popularista ou escapista para ter relevância política.

Muito pelo contrário, segundo afirma o início do livro, que nos introduz de imediato Hildeberto Martins, aliás Jim Brazil, sobejamente conhecido pelas aventuras do General Ferreira e do seu Batalhão Temporal, os bravos defensores do espírito e português e da pátria lusa através dos tempos. Natural de Chaves e filho de agricultores, Hildeberto perde o pai em tenra idade, desaparecido em combate em terras de França na Primeira Guerra, e é forçado a seguir a mãe e o padrasto para Minas Gerais, onde passará a maior parte da juventude. Estes dois factores - a condição de órfão e as terras mágicas do Brasil - irão influenciar em muito a sua visão do mundo, e por consequência a escrita. Mesmo na fase final da sua carreira, irá descrever em À Descoberta dos Inuandos a exploração de um planeta de extrema beleza e verdura, um paraíso desconhecido na cartografia espacial, cujo povo cultiva a boa disposição e a alegria de viver, atraindo os exploradores para a cultura, antes de se descobrir que esse povo pratica o patricídio. Uma revelação dorida e pouco subtil da forma de pensar de Hildeberto, que consegue resgatar uma história tradicionalmente pulp da banalidade.

Hildeberto acabará por ingressar, ainda jovem, na marinha mercante, na qual conhecerá o mundo e, muito particularmente, Nova Iorque dos anos 30, destino comum da rota que então servia. Aqui encontra a literatura pulp americana, que imediatamente o fascina e da qual se torna ávido devorador. Segundo Villabuena, Hildeberto ficará conhecido pela epítome "o armazém de livros", pois chegará a acumular na sua cabina cerca de oito mil títulos adquiridos ao longo dos anos e que se recusava a abandonar em viagem. Entre as revistas encontrava-se Astounding, firme nas mãos de John Campbell, uma das principais referências mais tarde.

Numa das suas estadias em Lisboa, acaba por sofrer um acidente que lhe vai custar a perda de um pé, terminando assim a sua carreira marítima. Fica a recuperar na zona da terra natal, em casa de familiares distantes. É forçado a vender a colecção literária para sustento a uma família inglesa da zona, com quem irá iniciar uma relação de amizade e depois de casamento. Será a mulher, Mathilda, filha do patrono, quem lhe irá sugerir que traduza e publique aqueles mesmos livros. Nascia assim a saudosa Colecção Imaginação. A colecção rapidamente conquistou os corações da juventude portuguesa, em tempos de Segunda Guerra Mundial e grande incerteza face ao futuro. Foi um sucesso de vendas tão grande que em menos de um ano Hildeberto contratou dois tradutores a tempo inteiro, para conseguir publicar um livro por mês. Dominavam obras de Matheson, Heinlein, Doc Smith, Williamson, os grandes autores do pulp - e já não tão pulp - americano.

Questões relacionadas com a capacidade de obtenção de direitos de publicação, dificultadas pelo posicionamento nacional de favoritismo disfarçado às forças do Eixo, e pela presença excessiva de autores americanos começaram a sensibilizar Hildeberto à relevância de diversificar as suas escolhas, naquilo que Villabuena identifica como a primeira manifestação política deste tipo de literatura. Será então que lhe surge o romance de Amílcar de Mascarenhas, publicado em Angola, e com este uma ideia: de escrever as histórias que publica, e assinar com nome português. Mas Hildeberto não conhece autores, e mesmo Amílcar de Mascarenhas recusa o convite, amavelmente, para continuar a saga. Resolve assim escrever ele próprio e assinar com pseudónimo.

Muito se escreveu já sobre o plágio evidente de Hildeberto nos primeiros tempos, e Villabuena não esconde isso, mas contextualiza a razão porque pareceu necessário que existisse. Hildeberto não tinha experiência de escrita, precisava de publicar e tinha a censura à perna. Ser-lhe-ia difícil conseguir de outra forma que não apropriando as obras que continuava a traduzir e publicá-las com alterações, como se escritas por portugueses.
A evolução destas alterações constitui um dos subcapítulos mais interessantes do livro de Villabuena, e está cheio de exemplos divertidos. Hildeberto começa por adaptar apenas os nomes e os lugares dos livros (Null-A e Slan, de Van Vogt), atribuindo-os a lugares no país e nas colónias, tornando portugueses os personagens. Em breve, por verificar que não há grande distinção entre a história original e a adaptada, alarga o leque de modificações, e se a história tinha lugar no Midwest americano, passa a ter lugar no Ribatejo, os cowboys tornam-se toreadores e criadores de gado, e as próprias histórias ganham personagens tipicamente portugueses. Hildeberto aproveita todo o seu conhecimento das viagens marítimas e dos lugares estrangeiros, e consegue enriquecer, em certos casos, a estranheza dos territórios desconhecidos. Finalmente, as diferenças são tão grandes, em termos de estilo, personagens e enredo, que se pode afirmar que as obras são originais, talvez vagamente inspiradas em outras.

É um trabalho árduo. Hildeberto consegue produzir duas adaptações por mês, o que significa que num estado avançado da colecção estava a escrever dois romances originais, ou seja, quatrocentas páginas de manuscrito. E escrevia sobre tudo: novas tecnologias, primeiro contacto, viagens espaciais, batalhas. Todos os temas que estava de certa forma impossibilitado de publicar com liberdade.

Podemos dizer que a ficção científica portuguesa terá nascido com Hildeberto Martins.

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