Exposição Prolongada à Ficção Científica  

   um blog de Luís Filipe Silva


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02 Novembro 2008

29 Dias de Pulp. Ainda não é tarde de mais para participar na fenoménica, fantasiástica e fabulotosíssima antologia de originais de Pulp Fiction à Portuguesa, e fazer parte da galeria de contadores de histórias provenientes dos fundos mais recônditos da alma humana. Quem sabe que monstros o visitarão durante a noite?


(Capa de John Newton Howett)

O Mestre das Aranhas hesitou. Eram tantos! Pareciam homens vestidos em fatos de borracha com dois globos escuros de vidro colados no lugar dos olhos. Mas obviamente que não eram nada disso.Eram Larvas temíveis, de inteligência maligna, que tinham apenas um único propósito: escavar a terra até encontrar os ricos poços de petróleo deste país e devorá-los até à última gota.

- Venham até mim! - berrou, agitando o globo no ar. A luminiscência pútrida coloriu de verde as paredes mais próximas e fez brilhar as dezenas - não, centenas! - de pares de olhos que se remexiam lá ao fundo, na escuridão.

O som da sua voz ecoou pelo túnel dentro.

O acompanhante pigarreou.

- Desculpe-me interrompê-lo, mas creio que a sua atitude poderá não estar alinhada com a nossa estratégia inicial de nos escondermos em silêncio até eles passarem...

- As estratégias mudam conforme a feição dos ventos. Agora os ventos dizem para atacar.

- Devem ser ventos diferentes, pois os meus continuam a pensar que dois atacarem duzentos, e sem armas, num espaço pequeno sem saída, bem, é loucura.

O Mestre das Aranhas apontou para o lado, no qual uma teia tapava a passagem do tecto ao chão. Dúzias de aranhas percorriam-na que nem loucas, construindo-na com os fios que saiam dos minúsculos ventres.

- As minhas fiéis guerreiras prepararam a armadilha com que os vamos capturar! Estou a atraí-los para a perdição!

- Pois... uma teia de fino fio de seda contra matulões assassinos... estou de acordo, arame farpado para quê? Bazucas? Pfff!

- Tende fé, meu pequeno ajudante, a fé move o coração dos justos.

- Pela centésima vez, não sou o seu pequeno ajudante, sou o Delegado-Adjunto do Ministro do Interior. Só porque tenho vestido um fato tradicional da região e não sou branco e louro como você não significa que seja um pedinte. Estudei em Oxford!

O Mestre das Aranhas continuou a acenar e a berrar. Alguns dos gritos deviam ter chegado ao fundo do túnel, pois viam-se já alguns olhos fixos na direcção deles.

- Pare lá de agitar isto ao pé de nós! - o acompanhante arrancou-lhe o globo das mãos. - O facto de lhes chamarem de «Globos Verdes da Morte» não lhe diz nada?

Desenrolou o cachecol que trazia à volta do pescoço, uniu ambas as pontas no aperto da mão direita e depositou com cuidado o globo no interior da faixa assim formada. Ergueu-se, sopesando o cachecol com o objecto dependurado, em jeito de funda. Com a mão livre, rompeu a teia, abrindo caminho. Ao fundo, os Larvas já os tinham visto. Vinham a correr.

- O que pensa que está a fazer?! - berrou o Mestre das Aranhas.

- Isto só funciona se lhe dermos energia. Desde que não bata na parede, claro. Eu, se fosse a si, deitava-me... - começou a rodar sobre si mesmo. O cachecol acompanhou o movimento, erguendo o globo, que começou a brilhar mais fortemente. A câmara era pequena e por pouco o globo não embateu nas protuberâncias de rocha.

Começou a rodar mais depressa, a ganhar velocidade. O globo refulgia intensamente.

- Já! - e largou uma das pontas do cachecol.

O pequeno sol verde voou pelo ar.

Em direcção aos Larvas.

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Mais Conselhos de Escrita (persistência! persistência & experiências intensamente pessoais) dadas por um cidadão idoso de calções e gravata com uma fixação peculiar por uma miudinha morta.

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01 Novembro 2008

30 Dias de Pulp. Agora que se aproxima o prazo final para enviarem as vossas colaborações à antologia Pulp Fiction à Portuguesa (vide caixa à esquerda) que me encontro a organizar e que sairá em épocas de Feira do Livro no próximo ano, eis um último incentivo à vossa imaginação, na forma de uma capa evocativa dos tempos áureos do pulp por dia... e breves cenas de possíveis histórias por elas inspiradas (estejam à vontade para enviar as vossas; as melhores serão publicadas neste espaço).  


(Arte: Rafael DeSoto)

Lá vinha ele com mais um dos seus argumentos egoístas. Queria ir tomar uns copos com os amigos. Não ia para longe, diria ele, só para o morro sobranceiro à Embaixada da Sopércia, apenas tomar umas cervejolas. Tudo muito inocente. Como se ela se tivesse esquecido das outras vezes! Mas julgava que era parva? Que estava para aturar que lhe entrassem em casa novamente durante a noite, que lhe partissem as janelas e arrombassem as portas? Da última vez tinha estragado um bom conjunto de facas a deter os atacantes e ainda por cima ele tinha decidido enterrá-los no canteiro das buganvíleas. O trabalho que as flores lhe tinham dado, tudo para nada. Ele que não ousasse! Ia com os amiguinhos embebedar-se e atirar à distância contra o quartel dos terroristas. O estado em que as roupasvoltavam! Ele julgava que ela não tinha mais nada que fazer do que passar horas a esfregar as manchas de sangue e C4 das camisas?

Ele que não viesse com pedidos daqueles novamente. Ela tinha de ficar em casa, enquanto ele fazia explodir campos de treino e degolava bombistas-suicidas?

Porque é que ela não podia ir também?

Porque é que ele nunca a levava?

Bem, desta vez ele não ia conseguir nada. Tinha um contra-argumento bem forte entre mãos!

(É verdade que ter casado com o grande agente secreto Dick James tornava as coisas mais emocionantes na cama, mas por vezes ela ansiava que ele fosse apenas um humilde vendedor de utensílios para o lar...)

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