Conceito de Luís Filipe Silva

Ficção Científica, Fantástico, Surrealismo, Realismo Mágico, Terror, Horror, Ciberpunk e História Alternativa - e por vezes, se fôr de excelente qualidade, ainda fechamos os olhos a um certo Mainstream...

[Conheça o Manifesto]

Conto

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~ La Nausée II ~

Lentamente, o ritmo penetra a minha distracção. Difere de todos os que esperaria, porque é simples e directo. É sincero. Um solo de saxofone, apenas, sem misturas. Notas isoladas que se entrelaçam e formam um cordão contínuo de mortais cadências; ondas do mar que se espraiam em meus tímpanos e neles encontram a morte. É uma morte desejada, a mesma dos minutos, que asseguram a continuidade e o prosseguimento. Como as ondas que, ao desabarem, permitem que a seguinte se forme, corno a contra-resposta que faz avançar uma conversa (e tantas as que aqui ouço, tantas perguntas também), as notas formam, numa sucessão contínua, os elos da corrente, e por extensão, a própria corrente, a própria amarra com sabor a ferro e o vigor da luz a dançar na água. Capturar uma seria quebrar a corrente e impedir a sua existência, porque, quebrada, não se dividiria em duas, mas antes deixava de poder cumprir a sua função: a de agarrar. Deixava de ser amarra. Suspenso pelas notas, sentia-me pairar sobre Paris, sobre as casas de Paris, sobre o oceano de telhados e rostos e de corações a bater. Ouvia-os a todos, os pequeninos por nascer ainda nos ventres das mães, os dos ladrões nas vielas e os dos funcionários nos hospitais, os dos motoristas, os dos que procuravam o esquecimento no fundo de um copo, os dos que dormiam, indiferentes ao mundo, os dos que faziam amor, os dos que morriam devagar, como a última batida de um relógio sem corda. Estava no bar, perto de casa, mas também estava longe, estava em todo o lado, via por todos os olhos.

Então, o som pára, deixando-me suspenso sobre Paris, e é como se o mundo também parasse.

Some of these days
you'll miss me honey

e dou um pulo na cadeira, tão forte que os que a meu lado conversavam olharam-me, espantados. Alguma coisa me batera. Algo intangível, sem forma. Não fisicamente: o ataque foi noutro plano, no plano da consciência. Era como se, subitamente, eu fosse outra pessoa. Uma pessoa vulgar, no início do século, que num bar se sentava a escutar a mesma música e a reagir a ela do mesmo modo. Quase consigo observar a ponte de ligação entre os dois, a milhares de milhas de distância, no tempo e no tecido universal. Uma forte sensação de déjà vu preenche-me. Assusto-me. Sinto-me bem, bem até de mais, e é por isso que quero sair do café e ir para casa. Para o quarto da minha existência. Para as palavras e o meu milénio, a grande lista de datas infinitas que me obrigo a colar numa sequência com significado. Chamo o barman. É o Jacques, conhecemo-nos. Pergunta-me porque me vou embora tão cedo. Respondo que estou cansado. E o trabalho? Ça va, digo eu, a pensar se estarei a mentir.

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Terça, 17 de Agosto (à noite)
A sensação não passou. Voltei ao quarto, à secretária. Voltei à noite. Voltei ao ambiente familiar que me acolhe, mas a sensação não morreu. O déjà vu, esse passou, mas sinto que deixou a sua marca. Estou mudado. Alguma coisa está mudada. Não consigo isolá-la. Está em todo o meu redor, a sensação. Está além do meu alcance, se tal região existir. Como se, aqui, ouvindo os segundos caírem no mecanismo das minhas próprias veias, o tecido de um mundo novo tivesse sido descido, sem a mínima perturbação, sobre aquele que os meus olhos seguravam. Nada continha de diferente, excepto um pormenor, que não lhe pertencia: eu era.

A mudança. Reconheço agora do que se trata. A palavra saltou-me à mente como um animal assustado escapando de uma armadilha: consciência. Estava dentro da minha mão. Estava consciente da minha mão. Da completa articulação do meu braço, da sua condição de apendicidade. A estranheza do peso sobre a mesa de madeira imitada. As rugas que a pele formava na esquina do cotovelo, pequenas marés de gordura e hidrates de carbono em constante agitação. Estava calor, e as mangas arregaçadas até quase atingirem o ombro.

Em 1939, começava a chacina mais brutal da história da raça humana.

Saboreio a ideia. Estava calor. Duas palavras, dois conceitos, dois arabescos que viajaram através do espaço, e através das eras, para desaguarem na foz do rio de tinta que cai da caneta para o corpo da folha. A folha, em tempos, foi parte de uma árvore. Foi a própria árvore, a polpa do tronco, um grão de consciência. Agora, a sua brancura esbofeteia-me e lança um desafio para que eu a viole.

O Japão medieval abandonou, por quase dois séculos, o uso de armas de pólvora e retornou ao manejo das velhas espadas; durante noventa e seis anos as armas tinham sido usadas para travar guerras feudais, com efeitos devastadores. Compreendendo os guerreiros de elite que as pistolas podiam ser manejadas pelo mais comum dos camponeses, e assim era colocada em pé de igualdade a sua fina arte de matar, criaram um precedente ímpar na História das nossas culturas: uma corrida ao armamento que não resultou numa guerra.

Em tempos, a folha que foi a árvore passou a vida envolvida numa feroz competição para abocanhar o maior quinhão de luz solar que conseguisse. Desejava a luz, na inconsciência descuidada de que estava a desejar a própria morte. Cada dia gasto era um dia a menos na quantidade finita que lhe fora destinada. Como este dia que passou hoje por mim.

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Referências e Textos Relacionados

Autor:
Luís Filipe Silva

Textos:
O Futuro à Janela: Estudo da Obra e da Ficção Científica Portuguesa Actual
Jorge Candeias fala de O Futuro à Janela, de Luís Filipe Silva

Na Web:
O Futuro à Janela (Mediabooks)