Conceito de Luís Filipe Silva

Ficção Científica, Fantástico, Surrealismo, Realismo Mágico, Terror, Horror, Ciberpunk e História Alternativa - e por vezes, se fôr de excelente qualidade, ainda fechamos os olhos a um certo Mainstream...

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Conto

 

O Habitante das Paredes

 

Eduardo Bettencourt Pinto

 

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Ele está de pé, no vestíbulo, encostado à janela que dá para a rua. Ortéria, frenética, alarga-lhe a roupa, debruçada na máquina de coser. Desde que se reformou, o marido não deixa de ganhar peso.

Com o volume físico, veio também uma disposição errática, revelando os súbitos e densos túneis de um carácter insondável. É alto, calvo, com um andar de quem se sente acossado pelo próprio destino, sem convicções políticas e até ali razoavelmente satisfeito com a vida.

Tudo começou no dia em que ele trouxe para casa uma roseira. Sentado à mesa da cozinha, pôs-se a fazer um detalhado croquis do quintal, numa cartolina que obteve desmanchando uma caixa de sabão para a máquina de lavar a roupa. Depois foi ao quintal, mediu-o meticulosamente, registando os números num pequeno bloco de apontamentos. Munido dos dados, começou a fazer cálculos esquisitos, servindo-se de uma calculadora de bolso. De vez em quando fazia uma pausa para ir à janela verificar a posição do sol.

Ortéria ficou intrigada com a misteriosa actividade do marido mas não o interpelou. Com um ar de aparente impassibilidade, continuou os afazeres domésticos. Ela era uma mulher de modos suaves e pele transparente, pouco dada a movimentos e atitudes esotéricas, de olhos translúcidos e cabeleira de oiro fulminante, caída sobre os ombros como uma nuvem de seda. Com mãos e alma feitas para a música, nunca teve uma audiência que apreciasse o seu talento. Tocava para si mesma ou para as costas do marido, sentado no sofá da sala e com a cabeça afundada no jornal.

Ao cabo de uma hora, Propelius deu o esquema por terminado. Saiu logo para o quintal. A partir dos seus planos, pôs-se a medir o terreno, ao mesmo tempo que ia marcando no chão, com um pau, o resultado dos seus cálculos. Quando terminou as medições, fincou o pau no sítio calculado. De mãos nos quadris, certificou-se que o sol incidia sobre o ponto escolhido. Só então foi à casota de arrumações buscar a pá.

Antes de cavar, Propelius despiu a camisa, descalçou-se e colocou um boné na cabeça. Traçou depois um círculo no chão, e começou a abrir o buraco. A sua veemência anódina recrudescia ante a receptividade da terra húmida aos golpes da pá. Sem que se apercebesse, o diâmetro da cova foi alargando. Quando pausou para um breve descanso dos rins e dos braços, o buraco já era três vezes mais largo do que o tamanho planeado.

Nesse dia Ortéria ia almoçar com a irmã, à qual se juntava religiosamente uma vez por mês. Cabia a Ortéria ir buscar Eleonor pois esta tinha horror incontornável a conduzir. Depois de uma breve paragem, em que tomavam café com bolinhos caseiros ou fatias de torta de maçã, seguiam as duas, rejuvenescidas pela expectativa e muito enlevadas, para o centro comercial. Almoçavam a maior parte das vezes num restaurante indiano, dando ao palato exóticos, variados e exuberantes prazeres gastronómicos. Consagravam a tarde ao invariável e banal vasculhar das lojas. Só uma vez por outra entregavam o corpo a aventuras oleosas, nas mãos musicais dos massagistas, ou ao cuidado paciente do pedicuro. Quando regressava a casa, Ortéria trazia dentro de si reserva emocional bastante para enfrentar a sibilante rotina da sua vida, ajudando a suportar a canga do tédio matrimonial com reviçado esplendor.

Ortéria encontrou Eleonor em estado aziago, ainda com rolos nos cabelos, chinelos e camisa de dormir. Mal lhe abriu a porta, explodiu numa azorragada de palavras inflamadas, e nem se apercebeu que não tinha correspondido ao amável cumprimento da irmã. Atirando com a porta, e sem que lhe desse oportunidade a perguntas, disse a Ortéria que a seguisse até à sala. Esta, alarmada, foi atrás dela pelo pequeno lance de escadas alcatifadas.

A televisão, sobre um móvel negro com rodas, estava virada de lado. Foi para lá que Eleonor apontou o dedo, abanando a cabeça.

- Que se passou? - inquiriu Ortéria abrindo muito os olhos de espanto, ao verificar que os fios eléctricos estavam todos cortados.

- Foi o estúpido do coelho, roeu todas as cordas da casa. Estava a ver a telenovela enquanto arranjava o cabelo, e de repente fiquei sem imagem. Fui ver: lá estava ele com os bigodes queimados, estendido. Morreu feliz, pelos vistos.

Ortéria, a mais afoita, pegou no animal pelas patas traseiras e foi enterrá-lo no fundo do quintal, ao lado de uns arbustos.

Acabaram por almoçar em casa. Só à tarde, num ímpeto, decidiram ir ao centro comercial.

Escurecia, quando Ortéria voltou a casa. Ligara de casa da irmã mas o marido não atendia o telefone. Teria saído? Mal estacionou na garagem, pôs a mão no capô do motor do carro dele para verificar a temperatura. Estava frio. Sobressaltada, meteu-se pela casa adentro a chamar por ele aos gritos. Não estava na sala; procurou em vão por tudo o que era sítio. Só quando pegou no telefone para falar à irmã, se lembrou do quintal. Acendeu a luz exterior e saiu.

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Autor:
Eduardo Bettencourt Pinto